
A mistificadora propaganda apresentava o Partido Republicano Português (PRP) como capaz de provocar a renovação nacional e expunha a Monarquia coberta de halo odiento e o monarca como energúmeno verrinoso, por entre o alarido das trombetas. A República, na verve demagógica dos propagandistas, vinha pintada com vivas cores dum sebastianismo messiânico verde-rubro. Até Basílio Teles alertava em 1907 para tal limite, dizendo que «a nossa deplorável retórica» apresenta a República «como uma espécie de divindade, transcendente e tutelar».
A instauração da república democrática parlamentar está na linha das revoluções burguesas pré-monopolistas desencadeadas desde 1820, protagonizadas ao colo da burguesia agrária, comercial e industrial, que haveria de expulsar o resquício duma aristocracia decadente. Representava tão-somente o sentir duma sensível aliança entre a elite burguesa citadina, as profissões liberais e algumas franjas progressistas do operariado urbano, perante a geral apatia atávica do País.
A partir de 1890, mais vincadamente na década de 1900, a elite republicana faz pública profissão de fé socialista, bajulando com olhinhos ternos a classe operária. A poderosa máquina do PRP passou deliberadamente à conquista dos trabalhadores, realizando inúmeros comícios e conferências e promovendo associações de classe, mobilizando as massas populares para a luta contra o regime monárquico e a realeza. Bernardino Machado confessava que «o anarquismo em toda a sua pureza é um sublime ideal», Afonso Costa e Magalhães Lima assumiam-se como «socialistas reformistas» e, até, António José de Almeida pretendia instaurar «uma república ampla, nacional, humana, onde caibam todas as aspirações socialistas» e, imaginem, arrebatado em êxtase sentia «o fulgor estranho da esperança anarquista»!
A força emergente do operariado, porém ainda incipiente, estava retraçada por zonas de influência diversa, como o minúsculo e inoperante Partido Socialista Português, as combativas correntes revolucionárias anarquistas e sindicalistas, mas também por uma importante franja do proletariado urbano que orbitava na esfera do partido republicano. A 2 de Outubro de 1910, dias antes da queda da realeza, a imprensa republicana aplaudia entusiasmada as greves dos operários, como fazendo parte duma epopeia heróica na luta contra a realeza e o regime monárquico, incentivando com prosa escorreita. Convém lembrar que o número de greves disparou incomensuravelmente desde 1903, porquanto o operariado tomara partido na questão política monarquia-república.
Os chefes e a propaganda republicana prometiam demagogicamente o advento dum regime que iria resolver todas dificuldades nacionais e, em especial, a «questão social», solucionando os graves problemas que afectavam as condições de vida do povo e das classes trabalhadores. A República não soube, ou não quis, satisfazer os direitos inalienáveis e imprescindíveis das grandes massas populares, nem de grande parte dos sectores da burguesia, dando o «convidativo espectáculo da nossa mesquinha incompetência, da nossa indecisão, da nossa versatilidade, e das nossas mesquinhas dimensões», no dizer abalizado de Basílio Teles.
A par com a funda apatia, rapidamente se instalou no País um clima de profunda decepção, como aliás pressagiara Basílio Teles, ao afirmar ainda antes da mudança do regime, que se a República «não fizer logo o milagre de lhe liberalizar sossego, bem-estar, fortuna, poderio, […] a desilusão e o desânimo querem-me parecer inevitáveis». A emigração disparou em flecha, de maneira que logo em 1912 a quantidade de portugueses que saíram do País duplicou em relação ao ano de 1908, passando o número oficial de emigrantes de 40 000 para 90 000, fora a incontrolável emigração clandestina. Em todas eras os portugueses sempre fizeram catim-catim para fugir daqui, mas naquela altura cresceu em demasia.
A República, se nunca pôs em causa as classes médias nem hostilizou de modo algum a alta burguesia financeira e terra-tenente, desde cedo estigmatizou e até elegeu o operariado como vil inimigo a combater. Afonso Costa, o socialista e adorador da classe operária de outrora, passou deliberadamente ao ataque, dirigindo pessoalmente a luta contra os sindicatos, o sindicalismo, os trabalhadores e os operários revolucionários, por palavras e actos, em qualquer discursata, cuja voz valia um Exército. Tanta aplicação e denodo valeu-lhe o merecido apodo de “racha-sindicalistas”.
Para espanto e terror da nova oligarquia republicana, em especial da burguesia, as greves não terminaram com o advento da República. Nos 14 meses decorrentes desde Novembro de 1910 e durante todo o ano de 1911 rebentaram inúmeras paralisações de todos os tipos, abrangendo uma vasta aérea de Viana do Castelo ao Alentejo, sobretudo em Lisboa e arredores, a maioria de carácter salarial, de horário de trabalho ou de solidariedade operária com outras lutas, e, facto novo, os trabalhadores rurais do Sul entravam na liça pela primeira vez na história. O movimento grevista correspondia tão-só à luta pela melhoria das frágeis e degradantes condições de vida e por um trabalho mais humano e razoável, mas também a uma maior organização e consciencialização dos operários e crescente força dos sindicatos.
Logo em 1911 os líderes republicanos e a imprensa republicana passaram a atacar as greves por coisas e loisas, com afinco e contumácia, virando a opinião pública contra os trabalhadores, acusando as reivindicações operárias como «excessivas e inoportunas», incriminando os operários de fazerem o «jogo da reacção», isto é, dos monárquicos, num trabalho permanente de calúnia. Espantosamente, seis décadas depois, o mesmo argumento seria repisado e usado para acoimar as lutas de 1974-1975.
O idílio cor-de-rosa entre a República e a classe operária cedo se desvaneceu, graças a três acontecimentos circunstanciais: a Lei da Greve, a repressão ferocíssima e o recenseamento eleitoral. A Lei da Greve, promulgada em Dezembro de 1910 foi de imediato rotulada de «lei burla» pelos entraves e espartilho que apresentava, sendo energicamente condenada pelos sindicalistas. Tirando a Lei da Greve e o regulamento das horas de trabalho por dia, a República não produziu mais nenhuma legislação sobre a tão propalada «questão social» no período 1910-1911, votando um enorme desprezo a este sector, talvez por o operariado na altura ser uma pequena minoria em relação à burguesia urbana.
O sufrágio universal e o recenseamento geral eleitoral foram dos cavalos de batalha dos republicanos, ainda no tempo da “outra Senhora”, mas como muitas das promessas não foi minimamente cumprida. No recenseamento monárquico de 1890 estavam recenseados 874 528 eleitores, contra 782 292 nos cadernos republicanos de 1911, número que iria descer espantosamente para 379 414 candidatos a votantes em 1913, um inconcebível recuo.
A 15 de Janeiro de 1911 a Carbonária organiza uma manifestação de protesto em alta grita contra o movimento grevista, que marca o princípio da ruptura dos antigos aliados. Seguiu-se uma veemente campanha de rua e da imprensa exprobrando a agitação laboral de estar ao serviço dos talassas e da Monarquia, visando o regresso do Rei e da realeza, pela via da destabilização, por entre cândidos apelos ao «bom senso». «Acabou a lua-de-mel» entre a Republica e os trabalhadores, proclamou António José de Almeida por essa altura. O povo e os burgueses já não marchavam juntos rumo a uma miragem comum e felicidade eterna! As greves, que antes de 5 de Outubro eram aclamadas revolucionárias, patrióticas e heróicas, foram apontadas a dedo como odientas, incriminadas de fazer o «jogo dos monárquicos», poucos meses depois!
Fruto desse clima de calúnia e crispação contra o operariado, no seguimento duma greve, a manifestação de rua realizada em Setúbal a 19 de Março de 1911 por operários, mulheres e jovens foi selvaticamente atacada com metralha pela GNR, naquilo que a imprensa chamou de «fuzilamentos», a primeira duma série de manifestações e greves alvejadas a tiro pelas autoridades republicanas. Na cidade do Sado, um jovem e uma mulher, tombaram inertes varados pelas balas republicanas. António Mendes e Mariana Torres foram os primeiros duma lista interminável que não parou jamais de crescer, quando reclamavam um cibo de pão e direito ao trabalho, por entre gemidos e brados agudos.
Em Novembro de 1911 o Governo mandou a GNR metralhar a greve dos padeiros de Lisboa, agredir os trabalhadores à coronhada, ocupar militarmente as padarias, instaurar, mais uma vez, o estado de sítio parcial e abarrotar a masmorra do Governo Civil, cheia de «agitadores» até ao tutano. A greve geral de Janeiro de 1912 foi reprimida com instinto sangrento, assalto militar e policial à Casa Sindical de Lisboa, prisão dos dirigentes sindicais e trabalhadores em porões de navios, como gado bovino, vinte e um anos depois da revolta do Porto de 31 de Janeiro.
Em Lisboa, Barreiro, Setúbal, Alentejo, Coruche e Algarve, para citar alguns exemplos, as greves foram esmagadas com fuzilaria, fogo de mosquete e cargas de cavalaria, as ruas ficaram pejadas de sangue, que escorria para as sarjetas. Cada greve, ameaça de greve ou ensaio de greve geral era barbaramente reprimido, decretando-se o estado de sítio e leis de excepção, encerramento da Casa Sindical e prisão de centenas de trabalhadores. Em quase todas as greves operárias e dos assalariados rurais, os militares e a GNR eram açulados como cães esfomeados às magríssimas canelas da arraia-miúda, baioneta em riste como facalhão de cortar berças, as ruas ocupadas, os calabouços abarrotavam pela medida grande e os sindicalistas deportados, açoite incessante a fustigar.
Os esbirros policiais, as milícias republicanas e a legião militarizada “Formiga Branca” esquadrinhavam as sedes dos jornais, sindicatos, associações laborais e recreativas, arrombando janelas e portas, procedendo a sistemáticas, minuciosas e vergonhosas buscas e apreensões. A perseguição atingiu níveis de paroxismo nunca visto antes, cruéis violências que jamais foram perpetradas, a esse nível, pela Monarquia Constitucional. Os estatutos e as associações operárias foram sistematicamente ilegalizados, vilania contínua. Os aumentos salariais nunca conseguiram acompanhar o aumento de custo de vida, a permanente desvalorização da moeda ou a constante escassez alimentar e a consequente carestia.
O exercício do poder, verdadeira contradição entre a teoria e a prática, encarregou-se de mostrar a real impossibilidade duma República de todos e para todos, alienando o capital de simpatia que conquistara desde 1890. A República foi um combate e sofrimento permanente. Diria um rústico, nunca faltou fome e porrada à mesa. Para o operariado, a República não foi mais democrática do que o anterior liberalismo monárquico, nem trouxe mais liberdade, fraternidade ou igualdade, sendo, antes pelo contrário, época de grande repressão. Nesse sentido se pronunciava a imprensa operária, sindicalista e anarquista, vítima duma opressão ferocíssima e ímpar.
O SINDICALISTA proclamava, aos ventos de Janeiro de 1913, que a «repressão da República» era «mais bárbara» do que a da Monarquia Constitucional. A imprensa, as associações operárias, os sindicatos, os trabalhadores e as suas greves foram alvo duma persecução despótica que não tivera «equivalentes» na repressão monárquica, assegurava o mesmo jornal de cariz sindicalista revolucionária. E sabia, bem, do que falava, pois experimentara o gume do aço nos dois regimes. Voltaremos, quiçá, ao tema.
















