
Ainda mal refeita da queda do Estado Português da Índia, a nação salazarista despertou para um novo choque no primeiro dia do ano de 1962, embora na linha dos anteriores focos insurreccionais, era, contudo, diametralmente algo de novo e diferente.
1961 foi, sem dúvida, o ano horrível do regime, com uma catapulta de acontecimentos vertiginosos, aquilo que a historiografia define como «a lenta agonia do salazarismo»: massacres da Baixa do Cassange, em Angola (6 de Janeiro), assalto ao paquete Santa Maria (22 de Janeiro), ataque à Casa de Reclusão Militar, quartel da PSP e Cadeia Civil de Luanda (4 de Fevereiro), condenação da política colonial no Conselho de Segurança das Nações Unidas (23 de Fevereiro), os Estados Unidos opõem-se à política colonial portuguesa (Março), rebelião e massacres no Norte de Angola (15 de Março), tentativa de Golpe de Estado do general Botelho Moniz (13 de Abril), ocupação do Forte de S. João Baptista de Ajudá pelo Daomé (1 de Agosto), desvio de um avião, com lançamento de panfletos sobre Lisboa (10 de Novembro), morte do general Silva Freire, num desastre de aviação em Angola (10 de Novembro), ocupação de Goa, Damão e Diu pela União Indiana (17 de Dezembro).
Na noite de 31 de Dezembro de 1961 um grupo oposicionista dirigiu-se a Beja, a componente militar comandada pelo capitão Varela Gomes, e Manuel Serra como comandante da parte civil, recrutados nos bairros populares da periferia de Lisboa, com destaque para alguns ex-militantes do PCP, operários, monárquicos, personalidades da esquerda socialista e do sector dos católicos progressistas.
Convém saber que os preparativos para a conspiração foram organizados em Outubro e acelerados em Novembro de 1961 a partir de núcleos civis de oposicionistas de Lisboa, Almada e do Barreiro, envolvendo imensos contactos entre Manuel Serra, Edmundo Pedro, Adolfo Dinis de Ayala, Gilberto de Oliveira, Joaquim Eduardo Pereira e Alípio Rocha. Contudo o esqueleto da acção fora previamente gizado no Brasil por Humberto Delgado e Manuel Serra.
Foi idealizado o plano de transporte dos revoltosos a partir do eixo industrial da Margem Sul, a tomada do quartel, a distribuição do armamento e fardamentos, a eventual adesão dos militares ali presentes, a posterior organização de colunas para operar no Alentejo e no Algarve, a sedição de outras unidades, o ataque a postos da GNR e a destruição de pontes para impedir a capacidade de resposta do regime.
Depois de armados com as armas capturadas em Beja, um comando partiria em direcção ao Barreiro, onde deveria tomar o posto da guarda e apregoar o levantamento popular. Alguns dos conspiradores ficariam de atalaia em Alcácer do Sal para dinamitar a ponte, após o triunfo da tomada do quartel. Para tudo isso, foi considerado que o número mínimo de revoltosos necessários deveria rondar os cinquenta companheiros, a fim de dotar a operação de alguma capacidade operacional.
O assalto chegou a estar marcado inicialmente para 2 de Dezembro e depois para a noite de 9 de Dezembro de 1961, sendo adiado in extremis, quando já em Beja constataram que o plenilúnio não permitiria a cabal execução do planejado, mas também devido ao atraso e desencontro de outros elementos vindos de distintas paragens e avaria dum carro.
A intentona militar, que fazia parte dum amplo plano que nunca chegou a ser executado ou clarificado, fora planeada com acordo do general Humberto Delgado, que para tal fim entrou clandestinamente em Portugal no dia 30 de Dezembro de 1961, a fim de liderar a revolta.
Durante a madrugada de 1 de Janeiro de 1962, às 2h10, o grupo em causa infiltra-se pela porta de armas do Regimento de Infantaria n.º 3, imobiliza o oficial de dia e ocupa o quartel. Os revoltosos, porém, nunca beneficiaram do factor de surpresa total, pois na véspera o Ministério do Exército avisara o coronel Manuel Francisco Stadlin Baptista, comandante do Regimento, acerca dos rumores dum eventual assalto ao quartel, no âmbito duma vasta conspiração revolucionária. A unidade foi colocada em «regime de vigilância especial» e aguardou o desenrolar dos acontecimentos.
Na ocasião em que o capitão João Varela Gomes intimou voz de prisão ao precavido major Henrique Calapez da Silva Martins, 2.º comandante da unidade, é gravemente atingido a tiro de pistola-metralhadora por este, «inutilizado, desta maneira, qualquer acção posterior dos revoltosos», o qual depois de uma rápida troca de tiros, consegue fugir e alertar a GNR e a PSP locais.
A força militarizada, «permanentemente dirigida pelo ministro do Exército, do seu Gabinete, através de meios especiais de transmissão», cerca o aquartelamento e contra-ataca os sublevados com fogo cerrado, tendo resultado a debandada de alguns dos «elementos subversivos» e a morte de dois dos assaltantes. Mais tarde, colunas fiéis do Regimento de Infantaria de Évora, do Regimento de Cavalaria de Estremoz e do Batalhão de Caçadores Especiais completaram a tanaz do cerco.
Alertado para os graves acontecimentos, o tenente-coronel Jaime Filipe da Fonseca, subsecretário de Estado do Exército, «para observar no local a acção de repressão», deslocou-se prontamente à cidade da planície acompanhado tão-somente pelo capitão Alves Ribeiro. Ao aproximar-se a pé da porta de armas do quartel, cerca das 6h30, debaixo de chuva torrencial, foi atingido por "fogo amigo" disparado a partir duma torre contra aquele vulto pelas forças militarizadas sitiantes, porquanto «não identificaram os dois oficiais, os quais se encontravam à paisana», tendo morte imediata.
O capitão Varela Gomes, atingido a tiro de metralha na «parte superior do abdómen e na coxa esquerda», internado no Hospital da Misericórdia de Beja «sob prisão» e «em estado muito grave», foi operado de urgência pelos médicos José Maltez e Joaquim Delgado, sendo depois reoperado pelo dr. Sérgio Sabido Ferreira, expressamente vindo de Lisboa para tal, e, por fim, submetido a novas intervenções cirúrgicas «em complemento às anteriores operações» pelo dr. Assunção Tavares.
As autoridades policiais e militares organizaram uma gigantesca operação de «caça ao homem», com particular incidência pelo Alentejo, Algarve, Setúbal e Lisboa. Foram «montadas brigadas de fiscalização de veículos, passageiros e cargas», ao mesmo tempo que em várias localidades «têm sido presas numerosas pessoas, que a polícia considera como suspeitos», algumas delas somente para interrogatório.
Entrementes, o General Sem Medo, que chegara a deslocar-se para a capital do Baixo Alentejo, volta a sair do país, a 2 de Janeiro, numa rocambolesca fuga, tendo ridicularizado a eficiência das forças policiais, ao contar como ludibriara sob disfarce a vigilância do regime.
Por nota oficiosa datada de 3 de Janeiro, o Ministério do Exército informa que os cinco oficiais «que participaram na tentativa revolucionária de Beja», foram sancionados com a «pena de demissão» por serem «considerados indignos de usar a mesma farda com que se batem nas províncias ultramarinas os soldados de Portugal».
Os revoltosos, cujo número exacto se desconhece mas oscilaria os oitenta elementos, contaram com a preciosa participação directa ou indirecta dos militares Jaime Carvalho da Silva, capitão Manuel Pedroso Marques, tenente Francisco Brissos de Carvalho e Airolde Casal Simões, e dos civis Urbano Tavares Rodrigues, Fernando Piteira Santos, Joaquim Barradas de Carvalho, José Pelágio, José Hipólito dos Santos, Adolfo Dinis de Ayala, Alfredo Guaparrão Santos, António Ricardo Barbado, António Vieira Franco, Artur dos Santos Tavares, Delmar Silva, Fernando Roxo da Gama, Francisco Leonel Lobo, Manuel da Costa, Venceslau Lopes de Almeida, Victor Quintão Caldeira e Victor Zacarias de Sousa, para além dos já citados e dos referidos nas diversas listas em anexo.
Mortos:
Tenente-coronel Jaime Filipe da Fonseca, subsecretário de Estado do Exército;
David da Silva Abreu, barbeiro, residente em Lisboa;
António Pedro Correia Vilar, motorista, residente em Lisboa;
Feridos:
Capitão João Maria Paulo Varela Gomes;
Raul Lourenço Zagalo Gomes Coelho, estudante e empregado comercial, residente em Lisboa.
Presos (lista incompleta):
Capitão João Maria Paulo Varela Gomes;
Capitão Eugénio Óscar Filipe de Oliveira;
Tenente miliciano Jorge Manuel Toscano de Melo;
Alípio dos Santos Rocha, residente em Almada;
António Correia Matos, carpinteiro, residente em Almada;
António dos Santos Pereira, serralheiro, residente em Almada;
António Francisco Correia da Graça Miranda, médico, residente em Lisboa;
António Pombo Miguel, serralheiro, residente em Almada;
Artur José da Silva Vaz, "o Antunes", escriturário;
Augusto Silva Ribeiro, serralheiro, morador em Algés;
Edmundo Pedro;
Fernando Nunes Pereira, morador na Cova da Piedade;
Filipe de Assunção Lopes, carpinteiro, morador em Almada;
Gualter Viriato Nunes Basílio, vendedor de artigos, residente em Lisboa;
Hélder de Jesus Santos, bate-chapas, residente em Lisboa;
João Pereira de Abreu, soldador, morador na Cova da Piedade;
Joaquim da Conceição Sim-Sim, funcionário do Arsenal do Alfeite, residente na Cova da Piedade;
Joaquim Dias Lourenço;
José Duarte Galo, funileiro, morador em Almada;
José Luís Conceição Silva, proprietário;
Manuel Joaquim Peralta Bação, montador, natural de Monção, morador em Almada;
Manuel Serra;
Mariana Esteves, enfermeira.
Demitidos do Exército:
Capitão de Artilharia João Maria Paulo Varela Gomes, em serviço no Estado-Maior do Exército;
Capitão de Administração Militar Eugénio Óscar Filipe de Oliveira, em serviço na chefia do Serviço de Verificação de Contas e Inspecção Administrativa;
Capitão de Infantaria Francisco António de Vasconcelos Pestana, colocado no Regimento de Infantaria n.º 5;
Tenente de Administração Militar Alexandre Hipólito dos Santos, colocado no Regimento de Infantaria n.º 5;
Tenente miliciano Jorge Manuel Toscano de Melo, colocado no Regimento de Infantaria n.º 5.